Tempo de leitura: 8 minutos (1566 palavras)
Destacado 

A Meditação à Luz da Ciência Psicológica

meditacao-a-luz-da-ciencia-psicologica

Pode-se definir meditação como uma prática que engloba um conjunto de técnicas que buscam treinar a focalização da atenção (Shapiro, 1981). Por essa razão, pode ser chamada de processo auto-regulatório da atenção, em que através da prática é desenvolvido o controle dos processos atencionais (Davidson & Goleman, 1977; Goleman & Schwartz, 1976). Tal prática pode levar a diminuição dos pensamentos repetitivos e à reorientação cognitiva, desenvolvendo habilidades para lidar com os pensamentos automáticos.

A meditação é uma prática muito antiga, com origem nas tradições orientais, estando especialmente relacionada às filosofias do yoga e do budismo (Levine, 2000). Enquanto no Oriente meditar é sinônimo de busca espiritual, no Ocidente, em especial nas pesquisas científicas, a palavra meditação tem sido utilizada para descrever práticas auto-regulatórias do corpo e da mente. A investigação científica da meditação parte da premissa que, embora existam diversas técnicas, todas têm uma característica fundamental comum: o controle da atenção (Cahn & Polich, 2006; Goleman, 1988).

Conforme o processo atencional é direcionado, as técnicas meditativas podem ser classificadas em dois ou três tipos principais, na visão ocidental. Em geral, dois estilos básicos são mencionados: mindfulness e concentrativo (Cahn & Polich, 2006; Davidson & Goleman, 1977). O tipo mindfulness, ou meditação do insight, é descrito como uma prática de abertura, em que há uma percepção dos estímulos, como pensamentos, sentimentos e/ou sensações, embora a atenção específica mantida seja uma observação livre que não os julga nem analisa. Algumas técnicas orientais que se enquadram nesse tipo são a meditação zen, vipassana e a própria adaptação ocidental mindfulness. 

As técnicas meditativas concentrativas caracterizam-se pela restrição da atenção a um único objeto, interno ou externo. Ignora-se qualquer estímulo do ambiente, focalizando uma atividade mental ou sensorial específica, por exemplo, a repetição de um som, uma imagem ou a respiração. Nesse tipo, incluem-se algumas meditações oriundas do yoga, como a meditação transcendental e a meditação budista samatha (Cahn & Polich, 2006). Já alguns autores argumentam que existe um terceiro tipo, denominado contemplativo, que seria uma integração dos dois outros tipos, visto que requer tanto a habilidade de focalizar como de se abrir para a percepção de outros estímulos. Alguns exemplos são a meditação judaica e determinadas orações (Shapiro, 1981; Shapiro, Schwartz, & Santerre, 2005). No presente texto iremos focar no Mindfulness como possibilidade de reconhecer sensações corpóreas, reconhecimento de emoções e de sentimentos.

O Mindfulness não se caracteriza como um processo interventivo em si, mas na análise das emoções e sentimentos que podem ser ressignificados. Por ressignificação entende-se facilitar a construção de um sentido significativo para as emoções e sentimentos, de forma que amplie a sua consciência para o seu organismo e elementos que o rodeia.

Então por que o Mindfulness é tão importante? Já existem pesquisas que comprovam a correlação da prática com efeitos neurofisiológicos e até mesmo neuroanatômicos. Na neurofisiologia foi comprovado por meio de medidas minuciosas e rigorosas uma série de padrões de reações associados à prática meditativa, que a caracterizam como um estado de consciência particular, diferente dos tradicionalmente conhecidos, como vigília, sono e sonho (Wallace, 1970). Essas reações também são chamadas de respostas psicofisiológicas ou neurofisiológicas, pois refletem mudanças no sistema nervoso central e autônomo (Aftanas & Golocheikine, 2001; Danucalov & Simões, 2006). O estado de Mindfulness se opõe a vigília e leva a um relaxamento integral do organismo onde se observa as suas sensações, emoções e sentimentos a partir da contemplação.

Já os efeitos neuroanatômicos correspondem a mapeamentos da área neural (não somente o cérebro como todas as estruturas que o auxilia em seu funcionamento), foi identificado um aumento da área cinzenta que corresponde a área do cérebro responsável pelo recebimento e processamento de informações; o que embasa achados psicológicos de transformação da percepção do sujeito através da prática de mindfulness. Também foi encontrada uma maior atividade dos neurônios e axônios que indicam o maior recebimento de informações, ao mesmo tempo encontra-se uma menor atividade no cérebro como um todo. O que evidencia o achado psicológico de que a prática sugere uma contemplação e não o processamento de informações.

E no que o Mindfulness pode ajudar quanto a saúde física, saúde mental ? Sintomas de estresse, em particular, têm apresentado resultados bastante significativos após o uso da meditação com populações clínicas e não clínicas, como apontam as medidas de sofrimento (distress) psicológico e marcadores biológicos (Cruess, Antoni, Kumar, & Schneiderman, 2000; Goleman & Schwartz, 1976; Oman, Hedberg, & Thoresen, 2006; Ostafin et al., 2006). Além disso, segundo uma meta-análise em que foi observado um alto e consistente tamanho de efeito da meditação sobre diversas situações clínicas, é através da redução do estresse que a meditação pode ser benéfica para diversas condições de saúde (Grossman, Niemannb, Schmidtc, & Walachc, 2004). Inclusive em condições de adicção o Mindfulness obteve bons resultados. Já têm-se clínicas que se utilizam da prática para facilitar a recuperação de sujeitos adictos em tabaco e álcool. Também participa de processos de ressocialização com sujeitos privados de liberdade por conta de alguma infração. Ainda deixa a desejar por conta da falta de pesquisas quanto à recuperação de sujeitos que sofrem de outras adições, como o uso de drogas como cocaína e heroína, que são consideradas drogas mais pesadas.

Segundo Jain et al. (2007), a meditação pode proporcionar o desenvolvimento de características psicológicas positivas por meio da redução de pensamentos ruminativos e de distração. Ao comparar os efeitos da meditação e do relaxamento corporal, Jain et al. verificaram que, embora ambas as técnicas tenham produzido uma redução do sofrimento psicológico e um aumento de afetos positivos, a meditação teve um efeito maior no aumento dos afetos positivos. Além disso, foi a única técnica com efeito sobre a redução de pensamentos e comportamentos ruminativos. O que também sugere a aprendizagem de habilidades não-cognitivas que facilitam a interação do sujeito com o mundo.

Em razão dessa relação entre meditação e aspectos psicológicos positivos, muitos autores a concebem como uma técnica útil para tratamentos psicoterápicos (Hayward & Varela, 2001; Martin, 1997; Naranjo, 2005). A meditação, assim como a psicoterapia, busca a eliminação das barreiras do ego, a fim de que as potencialidades humanas se manifestem (Martin, 1997; Naranjo, 2005). Através da focalização da atenção, a meditação pode ser interpretada como uma tentativa de desfazer os condicionamentos e as programações da mente (Goleman, 2003); além disso, o desenvolvimento de uma atenção livre de elaboração pode possibilitar o surgimento de conteúdos antes inacessíveis à consciência (Bishop et al., 2004); portanto, alguns autores acreditam que a meditação se aproxima dos pressupostos norteadores de diversas linhas teóricas da Psicologia (Naranjo, 2005; Vandenberghe & Sousa, 2006), podendo ser descrita como um estado de liberdade psicológica (Martin, 1997). (MENEZES & DELL'AGLIO)

Sugere-se então que a meditação é um campo que deve ser explorado tendo em vista a fomentação de bem-estar para a população. A produção científica atual sobre o tema ainda não torna possível saber quanto tempo de prática é necessário para as transformações mencionadas no texto. Têm-se apenas que para conquistar os objetivos almejados no tratamento é importante a prática diária de 5 a 10 minutos.

Gostaria de deixar também uma recomendação de Menezes & Dell'aglio que sugerem que aqueles profissionais que já utilizam a meditação em suas práticas terapêuticas relatem seus casos com o rigor científico necessário para que se inicie um movimento brasileiro de validação do uso da meditação como uma ferramenta destinada a promover a qualidade de vida nas suas diversas dimensões.

Referências:

Cahn, B. R., & Polich, J. (2006). Meditation states and traits: EEG, ERP and neuroimaging studies. Psychological Bulletin, 132(2), 180-211.

Davidson, R. J. (2004). Well-being and affective style: Neural substrates and biobehavioural correlates. Philosophical Transactions of the Royal Society B, 359(1449), 1395-1411.

Davidson, R. J., & Goleman, D. J. (1977). The role of attention in meditation and hypnosis: A psychobiological perspective on transformations of consciousness. The international Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 25(4), 291-308.

Davidson, R. J., Goleman, D. J., & Schwartz, G. E. (1976). Attentional and affective concomitants of meditation: A cross-sectional study. Journal of Abnormal Psychology, 85(2), 235-238.

Davidson, R. J., Kabat-Zinn, J., Schumacher, J., Rosenkranz, M., Muller, D., Santorelli, S. F. et al. (2003). Alterations in brain and immune function produced by mindfulness meditation. Psychosomatic Medicine, 65, 564-570.

Goleman, D. J. (1988). The meditative mind: The varieties of meditative experience. New York: G.P. Putnam’s Sons.

Goleman, D. J. (2003). Como lidar com emoções destrutivas. Rio de Janeiro: Elsevier.

Goleman, D. J., & Schwartz, G. E. (1976). Meditation as an intervention in stress reactivity. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 44(3), 456-466.

Jain, S., Shapiro, S. L., Swanick, S., Roesch, S. C., Mills, P. J., Bell, I., & Schwartz, G. E. R. (2007). A randomized controlled trial of mindfulness meditation versus relaxation training: Effects on distress, positive states of mind, rumination and distraction. Annals of Behavioral Medicine, 33(1), 11-21.

Menezes, Carolina Baptista; Dell'Aglio, Débora Dalbosco. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica em Psicologia: revisão de literatura. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 29, n. 2, p. 276-289, jun. 2009 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000200006&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 04 dez. 2018.

Ministério da Saúde. (2006). Portaria nº 971, de 3 de maio. Política nacional de Práticas integrativas e Complementares (PnPiC) no Sistema Único de Saúde, Departamento de Atenção Básica. Brasília, DF: Autor.

Naranjo, C. (2005). Entre meditação e psicoterapia. Rio de Janeiro: Vozes.

Vandenbergue, L., & Sousa, A. C. (2006). Mindfulness nas terapias cognitivas e comportamentais. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 2(1), 35-44.
2
O Cérebro “Decide” o Que Deseja Aprender, Aponta N...
A Instituição de Educação Infantil, o Psicopedagog...

Textos Relacionados

 

Comentários (0)

Nenhum comentário foi feito ainda, seja o primeiro!

Deixar seu comentário

  1. Postando o comentário como visitante. Cadastre-se ou faça login na sua conta.
0 Caracteres
Anexos (0 / 3)
Share Your Location
Digite o texto apresentado na imagem abaixo. Não consegue ver?

Relacionados

Fique por Dentro

Junte-se aos leitores inteligentes que recebem nossas novidades direto no e-mail:

Textos de Psicologia em Destaque:

Portal Psicologia