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O Complexo de Édipo e as Estruturas Clínicas

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No texto anterior sobre Psicopatologia descrevemos o que significa Psicopatologia, para quê serve e como é utilizada em todas as áreas a que se submete. Também em um texto anterior, estudamos sobre o Complexo de Édipo e suas etapas de desenvolvimento, tanto em crianças do sexo feminino quanto do masculino. No presente artigo, iremos discorrer sobre a influência do Complexo de Édipo na Psicopatologia.


O Complexo de Édipo é a fase vivenciada até os 8 anos onde a criança constrói sua identidade. Freud identificou nesta fase o desejo da criança pelo genitor do sexo oposto, sendo o advento do "medo da castração" que faz resultar em uma identificação com a figura parental do mesmo sexo, ocorrendo também nesta fase a formação d o seu Superego. A partir da formação do Superego o Ego pode mediar os atos do sujeito, sendo um instrumento de mediação entre a instância do Id (regido pelo princípio do prazer, onde está a busca pela satisfação dos desejos sem medir consequências) e do Supergo (regido pelo princípio da realidade, onde estão as normas vigentes na sociedade).

A Psicopatologia, por sua vez, constitui-se por uma ciência de base para o público "psi" e assistentes sociais que tem a função de classificar, enquadrar comportamentos que trazem sofrimento para o sujeito. A partir da lente dessa ciência, a intervenção clínica fica mais objetiva e podem ser utilizados alguns "padrões" para sujeitos que possuem sofrimentos semelhantes. A Fenomenologia vem a agregar a visão da Psicopatologia no que tange observar como cada sujeito se relaciona com os fenômenos que lhe trazem sofrimento.

Dessa forma, podemos discorrer sobre como um Complexo de Édipo mal solucionado pode acabar desencadeando estruturas clínicas de leves a graves. A Psicopatologia, por sua vez, é responsável por fundamentar essa classificação dada pelo profissional Psiquiatra.

Uma dissolução do Complexo de Édipo saudável para um menino ocorre diante do temor da perda do falo. A angústia leva a abandonar o investimento dirigido à mãe e intensificar a identificação com o pai (e assim assumir uma sexualidade masculina). A autoridade dos pais é introjetada no ego, formando o superego, que assume e perpetua a proibição do incesto. A partir disso, as tendências libidinais são dessexualizadas e transformadas em afeição.

Na menina a ligação com o pai está associada à "inveja do pênis". Porém, a não realização desse desejo faz a criança se afastar lentamente do pai e buscar identificação com a mãe para a partir disso realizar-se em uma equação simbólica com outro homem, já que seu pai negou tal desejo.

Agora que entendemos como seria a resolução ideal para a dissolução do Complexo de Édipo, podemos partir para o que difere. Para isso, precisamos entender primeiro o que significa Complexo de Castração. 

O Que é o Complexo de Castração?

A Castração é, na realidade, uma experiência constante na vida do sujeito. Depois acontecimento da primeiro experiência, continuam a repercutir as suas manifestações simbólicas e imaginárias.

O Complexo de Castração consiste na perda do "falo" que é representado na fase infantil pelo pênis. O menino tem o medo de ser castrado pelo seu pai por conta do seu desejo pela sua mãe, e isso acontece quando vê o corpo de uma menina "castrada" - sem o pênis. E a menina, por sua vez, sente que tem algo faltando em seu corpo e tenta conquistá-lo de volta assemelhando-se com a sua mãe que já conquistou suas formas de representar simbolicamente o falo.

A castração é simbólica na vida do sujeito, representa a separação entre a mãe e a criança. É um corte que cinde e dissocia o vínculo imaginário e narcísico entre a mãe e o filho. A partir disso, o vínculo mãe-bebê é o que vai suprir a "falta" gerada pela castração. O agente operador do corte é em geral o pai, que vem representar a lei da proibição do incesto e estabelece limites na relação entre a mãe e o filho.

Dessa forma, a criança pode passar do Eu ideal para o Ideal do Eu. O eu ideal é a identificação com o falo, a imagem narcísica que a criança faz de si mesma. E o Ideal do eu é a encarnação do pai como uma figura perfeita que passa a ser o representante do ideal que é alvo de identificação por parte da criança.

É essa interiorização da lei que possibilita a constituição do sujeito. A partir da sua cisão com a mãe é que a cultura é introduzida como uma ordem, as normas, leis, regras se estabelecem como algo que deve ser seguido. Esse também é o momento inaugural da "família simbólica" que denota para a criança a importância de tecer vínculos com pessoas que não sejam as suas figuras de cuidado.

Agora vamos partir de como esse complexo da castração (advindo da vivência das fases do Complexo de Édipo) pode gerar uma estrutura clínica patológica. 

As Estruturas Clínicas Derivadas do Complexo de Castração

Agora que já entendemos como a Psicopatologia trabalha, como funciona o Complexo de Édipo e também o Complexo de castração no sexo masculino e feminino podemos partir para a diferenciação das estruturas clínicas.

Antes disso, precisamos explicitar a diferença entre Estrutura Clínica, Forma de negação, Local de Retorno e Fenômeno. Esses termos nos ajudarão a entender a forma de organização da estrutura no sujeito que está em sofrimento.

A Estrutura Clínica é o quadro de comportamentos não adaptativos e traços do sujeito que está sendo estudado. Na Psicanálise (que é a nossa lente nesse presente estudo), existem três possibilidades. A Neurose, Perversão e Psicose.

A Forma de Negação significa a relação que o sujeito estabelece com a sua castração. Nenhum sujeito "aceita" bom grado a sua perda de poder intrínseca ao falo. E por isso tenta retomá-lo utilizando-se de artimanhas inconscientes de fabricação de sintomas que o ajudam a retornar ao estado infantil e lembrar-se da fase onde todas as suas necessidades eram atendidas apesar do mínimo esforço.

O Local de Retorno é a forma que o sintoma irá retornar ao corpo do indivíduo. Na psicanálise temos três possibilidades: Real, Simbólico e Imaginário.

O Fenômeno se caracteriza pela forma como o sujeito manifesta o seu sofrimento.

Assim sendo, podemos partir para a classificação de Neurose, Perversão e Psicose. Vale lembrar que a Neurose é a estrutura clínica mais saudável, visto que o indivíduo neurótico consegue satisfazer boa parte de seus desejos através da fantasia e, com isso, não precisa transgredir normas e nem ferir um Outro.

A Neurose (estrutura clínica), possui o recalque (como sua forma de negação) e o seu local de retorno é o simbólico. O fenômeno é o sintoma físico ou psíquico. O recalque é uma proteção do inconsciente que cinde a relação entre o objeto de desejo e sua causa (a causa na psicanálise é a razão do sofrimento psíquico), dessa forma, o indivíduo, a nível de consciência deixa de sofrer por conta da cisão de seu desejo. Ter como local de retorno o simbólico é a estrutura da fantasia, de estruturar elementos do real de forma que faça sentido à consciência e assim integrar à personalidade.

A Perversão tem como sua forma de negação o desmentido, o seu local de retorno é o simbólico e o seu fenômeno é o fetiche. O desmentido significa aquele que prefere não saber acerca das suas fantasias mais sublimes, que podem gerar sofrimento ao outro e até mesmo a si próprio. Porém, essa forma de lidar com o desejo acaba por gerar sofrimento. O fetiche é submeter o outro ao desejo próprio e fazer com que ele corresponda exatamente às fantasias propostas no ensaio desse desejo. Ou seja, o outro tem que corresponder exatamente como o sujeito perverso ensaiou que ele fizesse.

A Psicose, por sua vez, a foraclusão é sua forma de negação, o real é seu local de retorno e seu fenômeno é a alucinação. A foraclusão significa a não inscrição da experiência de castração no inconsciente, é como se o sujeito não tivesse nenhuma representação simbólica de sua experiência de castração. O campo do real se deve ao campo onde a organização dos elementos vão atuar. Pegando o exemplo da alucinação, o sujeito psicótico vai alucinar na mesma realidade lógica compartilhada com outros sujeitos, vai ouvir coisas e ver coisas no mesmo campo que outras pessoas não escutam ou conseguem visualizar. Criando para si uma realidade dotada de lógica própria.

Dessa forma, fica clara como se manifesta cada estrutura clínica no corpo do sujeito e em seu campo social. Nos próximos textos entraremos em detalhes descrevendo como funciona cada estrutura clínica. O objetivo desse texto foi apenas tecer a relação entre Complexo de Édipo , o advindo Complexo de Castração e as conhecidas Estruturas Clínicas pela ótica da Psicanálise .

Referências:

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