Tempo de leitura: 7 minutos (1350 palavras)
Destacado 

O Humanismo e a Gestalt-Terapia

vitruviano-humanismo-1

Quando estudamos a história da Psicologia percebemos que durante muitos séculos essa disciplina fez parte da Filosofia e, apenas depois de criar um método próprio de investigação, definir seu objeto de estudo é que pôde tomar seu próprio campo científico e compor uma ciência independente. Segundo Lima (2009), uma corrente da nova ciência voltou-se para a Fisiologia, tentando dar um cunho experimental e científico; outra, de menor notoriedade, voltou-se para um entendimento mais sociológico, dedicando-se ao estudo dos grupos e tentando identificar alguns dos seus padrões de funcionamento.


A Psicologia, portanto, foi concebida como um conhecimento do ramo das ciências naturais; muito interligada a um saber médico, voltando-se para propostas de cura dos desajustes de ordem psicológica. A partir disso, foi instituído o Behaviorismo Metodológico (ou chamado de acadêmico) de Pavlov e de alguns outros de seus seguidores; estudando o comportamento observável. Surgiu também a psicanálise com um modelo – inicialmente – médico e com a proposta de reajustar sujeitos que não seguiam normas do controle social, tendo como seu objeto de estudo o inconsciente.

A Psicologia Humanista, também chamada de terceira força, opôs-se à ambos behaviorismo e psicanálise.Assim, surgindo a partir do sentimento de descontentamento que predominava contra os aspectos mecanicistas e materialistas da cultura ocidental, considerando que focar apenas no comportamento observável ou inconsciente era uma forma de reduzir os fenômenos psicológicos do ser humano. Dessa forma, afirma Holanda (1997, p. 16), "a psicologia humanista nasce, pois, da necessidade de ampliar a visão do homem, que se achava limitada e restrita apenas a alguns aspectos, a alguns elementos, segundo as perspectivas behaviorista e psicanalítica".

Também houve críticas contundentes ao criador da Psicanálise, Sigmund Freud. Para os humanistas, quando se abria mão dos aspectos positivos do ser humano, focando apenas o lado obscuro da personalidade, a psicologia ignorava forças e potencialidades da pessoa; houve a tentativa de recuperar essa força a partir de conceitos como tendência à autorrealização (na Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers), importância do momento presente (influência de religiões orientais como o Taoísmo).

Existem vários pontos de encontro entre o Humanismo e a Gestalt-Terapia, como uma visão positiva do ser humano. Essa visão positiva não consiste em ignorar as qualidades negativas do homem, consiste apenas em um movimento de valorizar as suas potencialidades em busca de uma maior autonomia e crescimento. Dessa forma, Mendonça (2013) esclarece alguns pontos de partida para o encontro entre o Humanismo e a Gestalt-Terapia em seu artigo intitulado "A psicologia humanista e a abordagem gestáltica", onde se lê: "A autonomia do espírito humano, capaz de encontrar por si mesmo a melhor alternativa para suas dificuldades é o ponto de encontro entre o humanismo e a Gestalt-Terapia. Ambos veem o homem como possuidor de um valor positivo, capaz de se autogerir e de se autorregular sem a tutela de uma autoridade externa, inclusive a do terapeuta."

Porém, não podemos deixar de tecer uma crítica ao primeiro modelo de Humanismo instituído, o modelo Antropocêntrico. A Gestalt-Terapia se refere ao humanismo onde há confluência e boa relação com os elementos que rodeiam o ser humano, sem um viés egoísta e desqualificador. O egocentrismo foi muito fortalecido pelo movimento humanista em seus primeiros anos, onde o homem era o centro de tudo e todos os elementos deveriam existir afim de satisfazer as suas necessidades. A Gestalt-Terapia não compactua com essa visão, acreditando em uma revolução humanista que valoriza a vida das demais espécies e não somente a da humana. É a revolução do "espírito humano" incorporando toda a vida em si, pela percepção ampliada do seu enraizamento diário essencial ao meio em que vive e pela percepção empática do vínculo de parentesco biológico e, portanto, da sujeição de todas as espécies viventes à mesma condição de vulnerabilidade ao sofrimento. Traz-seesse discurso calcado em Buber (1982) que constrói em sua teoria a importância do Ser humano ter uma boa relação com todos os elementos que o rodeia.

Visando alcançar o amadurecimento dessa compaixão, a Gestalt- Terapia traça dois vetores para a intervenção terapêutica:  (MENDONÇA, 2013)

  1. A reverência fenomenológica do terapeuta pela experiência do cliente, seja ela qual for; o terapeuta deve criar um encontro permissivo e sintônico com o ser do cliente, para que a possibilidade de completude na direção do crescimento e evolução do ser seja realizada. 
  2. A preocupação do terapeuta com a comunidade próxima do cliente; o profissional em Gestalt-Terapia deve ajudar o cliente a alcançar a consciência de saber distinguir entre a limitação psicológica do outro e a atitude intencionada de prejudicar, utilizar ou ignorar os demais pelo individualismo egoísta de poder ou de sucesso, tão vigente nas nossas instituições. Isso acontece a partir da profunda empatia e a compaixão para com a dor e a situação do cliente, quando autenticamente sentidas compõem um modelo humano poderoso que tende a promover no cliente um novo olhar para o outro.

​E no Que Consiste o Humanismo Utilizado Atualmente na Gestalt-Terapia?

O humanismo utilizado na Gestalt-Terapia  consiste em não categorizar o cliente mesmo que esse processo torne mais fácil o seu fazer profissional. Consiste em acolher a história do cliente com toda a sua atenção, refazendo o caminho de sua história junto com ele e buscando novas possibilidades para seu Ser. Consiste também na aceitação incondicional do ser humano, com um olhar amplo de possibilitar ao cliente o encontro com o seu Ser, com a sua autonomia para que assim descubra todas suas possibilidades de reinventar suas significações pessoais.

Foi o humanismo que possibilitou a abertura do estudo de diversos conceitos hoje fundamentais para o entendimento do ser humano na Gestalt-Terapia, assim como deu origem ao método investigativo centrado no ser humano (hoje não apenas o humanismo, como a Fenomenologia dá o suporte teórico que precisamos para compreender o fenômeno psicológico a partir da percepção do sujeito). Tais conceitos são: Awareness, Aqui-Agora, Acting-Out além de diversos vetores utilizados em intervenção terapêutica, como os mencionados no corpo do texto que enfatizam um olhar sem rótulos para o homem e a importância da valorização do seu relato. Além de revolucionar A Terceira Força no campo da Psicologia.

O humanismo é , portanto, uma proposta de desenvolvimento, de crescimento do Ser humano. Cícero, o grande orador romano, dizia que o termo humano supõe três elementos.

  1. Aquilo que define o homem como homem;
  2. Aquilo que vincula o homem a outro homem e aos homens em geral;
  3. Aquilo que forma o homem como homem.

Dessa forma, é possível notar que a filosofia humanista que é trabalhada na Gestalt-Terapia pensa que o homem é o centro da sua história e por isso pode reinventar-se a partir de suas próprias potencialidades, sem uma autoridade externa. E o faz a partir de suas relações consigo mesmo, com os elementos que o rodeia e outros seres humanos.

O humanismo é uma teoria do homem; psicoterapia de base humanística é o homem tomando posse de si e do mundo e não a aplicação de uma teoria no homem. O que traz para a abordagem gestáltica o foco no cliente e na vivência do mesmo a partir de sua própria forma de enxergar o mundo.

Este autor acredita que os terapeutas que se intitulam humanistas devem adotar uma perspectiva semelhante de Humanismo, pois essa corrente filosófica não possibilita uma visão antropocêntrica apesar de ter sido fundamental para "olharmos para si mesmos" e valorizarmos alguns elementos de nossa jornada. Por outro lado, nos permite uma visão muito mais ampla, genuína e empática do mundo em geral. A Gestalt-Terapia não é apenas uma abordagem, é uma forma de Ser e estar no mundo. O que nos abre espaço para uma nova discussão sobre Existencialismo. Como diz Sartre: O Existencialismo é um Humanismo.

Referências:

BUBER, M. Do diálogo e do dialógico. São Paulo: Perspectiva, 1982.

HOLANDA, A. F. Diálogos e psicoterapia – Correlação entre Carl Rogers e Martin Buber. São Paulo: Lemos, 1997.

LIMA, P. V. A. Psicoterapia e mudança – Uma reflexão. Tese (Doutraodo em Psicologia). Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ). 2009.

Gestalt-Terapia: fundamentos epistemológicos e influência filosóficas. Lilian Meyer Frazão, Karina OkajimaFukumitsu [organizadoras]. São Paulo: Summus, 2013. (Coleção Gestalt-terapia: fundamentos e práticas).

RIBEIRO , Jorge Ponciano. Gestalt-terapia: refazendo um caminho , São Paulo: Summus , 2012.

1
Breve Introdução às Estruturas Psíquicas em Psican...
O Que é Psicopatologia?

Textos Relacionados

 

Comentários (0)

Nenhum comentário foi feito ainda, seja o primeiro!

Deixar seu comentário

  1. Postando o comentário como visitante. Cadastre-se ou faça login na sua conta.
0 Caracteres
Anexos (0 / 3)
Share Your Location
Digite o texto apresentado na imagem abaixo. Não consegue ver?

Relacionados

Fique por Dentro

Junte-se aos leitores inteligentes que recebem nossas novidades direto no e-mail:

Textos de Psicologia em Destaque:

Portal Psicologia