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O Que Você Precisa Saber Sobre Empatia

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O estudo sobre a empatia tem sido objeto de interesse da psicologia desde o seu constructo científico. No início a empatia tinha um significado advindo da filosofia que considerava uma união ou fusão entre dois objetos (Abbagnano, 1988, p. 333). Psicologicamente a empatia significa experienciar indiretamente uma emoção próxima à vivida por outra pessoa (Eisenberg & Miller, 1987). A empatia implica a capacidade de nos posicionarmos no lugar do outro para compreendermos a sua realidade interna, independentemente da pessoa em questão, de estarmos ou não de acordo com ela ou de simpatizarmos ou não com ela. A empatia genuína está ao serviço da comunhão emocional, da aceitação e do respeito pelo outro e pela sua realidade, o que implica uma atitude de não julgamento e de despojamento de preconceitos do próprio. E esse movimento potencializa a elaboração de uma escuta qualificada para com o outro que sofre. Sobre isso que o presente texto abordará.

A boa capacidade empática pode ser entendida como a capacidade de entender o outro tendo como enquadramento a realidade deste e nunca utilizando como referência a nossa experiência subjetiva. Quando colocamos os próprios sentimentos no outro, acabamos por incorrer numa confusão entre o eu e o outro. (VALÉRIO, 2018). Quando o sujeito projeta no outro a sua realidade, acaba por não fazer a real escuta daquele mas apenas percepções de retalhos próprios na fala do próximo. O que pode gerar o movimento de tentar curar-se a partir da tentativa de cura do outro, o que é perigoso. As dificuldades conjugais, em amizades, nas relações de trabalho, muitas vezes traduzem a falta de empatia. A dificuldade de "pôr-se no lugar do outro", impondo assim a sua maneira de ver e viver o mundo. O que se torna um campo ainda mais minucioso no "setting terapêutico".

Na psicoterapia, o movimento empático é fundamental para se entrar em sintonia com o sofrimento do paciente mas importa não se tomar essas dores ou se ficar colado a elas, já que tal diminui a capacidade de ajuda. Depois de se ter captado essa informação, importa ao psicoterapeuta fazer o movimento de retorno à sua posição e a partir do seu ângulo poder devolver um sentido ao que está a ser manifestado, de uma forma mais clara, nítida e ajustada à pessoa em questão. (VALÉRIO, 2018). O movimento empático é o principal facilitador da relação dialógica que as terapias humanistas trazem para a discussão. Na relação terapeuta-cliente é necessária a construção de um contexto de troca, confiança, conforto para o uso de máximo potencial do setting. O psicoterapeuta só consegue olhar para o seu cliente quando abre mão de suas vivências pessoais e visualiza como foi para o outro vivenciar o que está relatando.

Rogers foi um dos principais estudiosos da empatia. O teórico existencial considerava a empatia o tripé básico do seu fazer clínico, além da aceitação incondicional e congruência. Gostaria de finalizar o texto com uma fala de Rogers sobre a empatia, o que denota toda a importância de cultivar essa habilidade nas relações humanas e também na facilitação de uma terapia no setting terapêutico:

Ao contrário do que eu pensava anteriormente, empatia é mais um processo do que um estado, e este modo empático de estar com outra pessoa apresenta várias facetas: É penetrar no mundo perceptivo de outra pessoa e se sentir completamente em casa ali… Significa ter sensibilidade momento a momento para perceber as constantes mudanças internas desta outra pessoa… do medo, a raiva, fragilidade, confusão, ou qualquer outro sentimento que ela esteja experimentando naquele momento…Significa viver temporariamente a vida do outro, morar ali dentro, e se mover ali de forma muito delicada, sem fazer nenhum tipo de julgamento, buscando perceber sentimentos que ela provavelmente não tomou consciência, bem como procurando não reprimir os sentimentos que pareçam ameaçadores e que ela porventura já tenha percebido… Inclui ainda a comunicação atenta do que você percebe daquele outro mundo, com seu olhar reflexivo e amigável, sobre os elementos que possivelmente a outra pessoa ainda teme… Consiste em constantemente conferir com esta pessoa se a sua percepção está sendo correta e se guiar por suas respostas… E ao ser guiado por essas respostas, você se torna um companheiro confiável a partir de dentro de seu próprio mundo, por apontar-lhe possíveis significados latentes em seu fluxo de experiências… Desta forma, você o ajuda a permanecer focado nestes referenciais internos que o permitirão ter um a percepção pessoal mais completa para atravessar aquela experiência… Estar com o outro desta forma, é pôr de lado seus valores e visões pessoais, de modo que possa entrar no mundo do outro despido de preconceitos… Colocar-se de lado desta forma pra penetrar no mundo alheio, somente é possível para alguém que tenha autoconfiança o bastante para não se perder no que poderá surgir de estranho ou bizarro naquele outro mundo, e voltar a si mesmo confortavelmente sempre que desejar… O que foi dito acima deveria deixar claro que Ser empático é a um só tempo um modo de ser complexo, exigente e forte, mas ainda assim, um sutil e gentil modo de Ser… 

​(O trecho acima foi extraído e livremente traduzido de uma aula proferida por Carl Rogers em 1974.)

Referências:

 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 2. éd. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

EISENBERG, N., & Miller, P. A. (1987). The Relation of Empathy to Prosocial and Related Behaviors. Psychological Bulletin, 101(1), 91-119.

VALÉRIO, Joana. Empatia e Simpatia: Qual a Diferença ? Psicologia.pt - O Portal dos Psicólogos. 2018. Disponível em:<http://www.psicologia.pt/artigos/ver_carreira.php?empatia-e-simpatia-qual-a-diferenca&id=359> Acesso em: 12 Out. 2018

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