Tempo de leitura: 4 minutos (728 palavras)

Cientistas Aumentam Velocidade de Leitura em Crianças com Dislexia Usando Filtro Colorido

Voluntários de 9 e 10 anos com dislexia diminuíram tempo para ler trechos de livros, o que pode ser resultado de maior ativação do córtex cerebral, indica estudo (foto: Milena Razuk)

A leitura é, notadamente, uma das maiores dificuldades das crianças disléxicas, porém isso pode ser melhorado com o uso de lentes verdes.

Quem apontou esse resultado foi uma equipe de pesquisadores composta por brasileiros e franceses, que fizeram um estudo com voluntários na faixa etária de 9 e 10 anos. Os voluntários que utilizaram uma lente colorida verde apresentaram aumento na velocidade de leitura. Os filtros, por outro lado, não demonstraram nenhuma diferença na velocidade de leitura de crianças não disléxicas.

Estes filtros também já foram indicados para crianças portadoras de Autismo e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade depois de serem patenteados, em 1983.

"No entanto, os estudos feitos sobre sua eficácia tinham deficiências metodológicas. Pela primeira vez foi usada uma metodologia bastante rigorosa"

 
disse Milena Razuk, primeira autora do artigo, publicado na Research in Developmental Disabilities.

Razuk, que concluiu em abril o doutorado na Universidade Cruzeiro do Sul, realizou o experimento durante o período que passou na Université Paris Diderot-Paris 7, em estágio de pesquisa com apoio da FAPESP. 

Para este estudo foram selecionadas 36 crianças, sendo 18 diagnosticadas com dislexia e 18 sem a condição, todas atendidas no Hospital Robert Debret, em Paris.

"São 12 cores disponíveis, mas chegamos a essas duas porque seria uma dificuldade muito grande para os voluntários ficarem tanto tempo submetidos ao teste"

 
disse José Angelo Barela, professor do Instituto de Biociências da Unesp, em Rio Claro, e coordenador do projeto.

Para o experimento foram escolhidos os filtros verde e amarelo. Em sequência as 36 crianças foram postas para ler trechos de livros infantis em uma tela. Os trechos eram lidos sem filtro, com o filtro amarelo e com o filtro verde.

A velocidade de leitura das crianças foi medida utilizando um aparelho chamado Eye Tracker, que é um óculos com duas câmeras que enviam sinais infravermelhos para os olhos e detectam onde o usuário está fixando o olhar e a respectiva duração.

De acordo com Barela, as crianças com dislexia necessitam de maior tempo fixando o olho em uma palavra para conseguir compreendê-la.

Para as crianças sem a condição de dislexia não foi notada nenhuma mudança na velocidade de leitura com os filtros, o Eye Tracker detectou que as crianças disléxicas passaram a fixar trechos de palavras ou frases por 500 milésimos de segundos ao utilizar o filtro verde, enquanto gastavam 600 milésimos de segundos com o filtro amarelo ou sem filtro nenhum.

Apesar da melhora na velocidade necessária para fixação do olhar, o período ainda é superior ao das crianças sem dislexia, que costumam fixar por 400 milionésimos de segundos. Os pesquisadores ressaltaram, ainda, que não avaliaram se o filtro verde melhorou ou não a compreensão do que foi lido.

Sobre a Dislexia

As causas da dislexia permanecem ainda desconhecidas, o que ocorre é que os portadores da condição apresentam uma integração sensório-motora menos acurada. 

"É como se houvesse algum ruído que atrapalha a comunicação do cérebro com o resto do corpo", disse Razuk.

Os pesquisadores cogitam que a melhoria da velocidade de leitura ao utilizar lentes verdes se deva ao fato do filtro proprocionar uma mudança no estímulo visual disponível para processamento no sistema nervoso central. Por outro lado, estudos diversos sugeriram que os filtros reduzem a excitabilidade do córtex cerebral, que por ser maior nos disléxicos, atrapalham a velocidade da leitura. Nesta hipótese, o filtro diminuiria o estímulo visual e, consequentemente, melhoraria a leitura.

Essa possibilidade ganhou mais força depois que estudos com ressonância magnética funcional (fMRI), publicados em 2015, mostraram uma ativação significativa do córtex de voluntários durante a leitura com filtros coloridos (nesse caso, azul), comparada com a de outros que não usaram filtro algum. Essas lentes, portanto, diminuiriam o estresse visual e a distorção do texto, aumentando o processamento visual e a performance de leitura.

O próximo passo da pesquisa será verificar a atividade cerebral das crianças disléxicas durante a leitura por meio de um aparelho de fMRI, já adquirido por Barela com apoio do CNPq.

O artigo Effect of colored filters on reading capabilities in dyslexic children (doi: 10.1016/j.ridd.2018.07.006), de Milena Razuk, Faustine Perrin-Fievez, Christophe Loic Gerard, Hugo Peyre, José Angelo Barela e Maria Pia Bucci está publicado em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0891422218301677.

A notícia original é da Agência PAPESP e pode ser conferida em:  http://agencia.fapesp.br/filtro-colorido-aumenta-velocidade-de-leitura-de-criancas-com-dislexia/28681/

1
Pesquisadores da USP Publicam Manuais Sobre Autism...
A Awareness na Gestalt-Terapia

Textos Relacionados

 

Comentários (2)

This comment was minimized by the moderator on the site

Excelente trabalho.

This comment was minimized by the moderator on the site

Muito obrigado, Eliene.

Nenhum comentário foi feito ainda, seja o primeiro!

Deixar seu comentário

  1. Postando o comentário como visitante. Cadastre-se ou faça login na sua conta.
0 Caracteres
Anexos (0 / 3)
Share Your Location
Digite o texto apresentado na imagem abaixo. Não consegue ver?

Relacionados

Fique por Dentro

Junte-se aos leitores inteligentes que recebem nossas novidades direto no e-mail:

Textos de Psicologia em Destaque:

Portal Psicologia